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Tradução da Introdução do livro: Philippe PIGNARRE, Les Malheurs des psys. Psychotropes et médicalisation du social, Paris, La Découverte, 2006. Tradução de Ângela Maria S. Hoepfner (psicóloga no SUS-Joinville, mestre em Psicologia, UFSC) e Ana Cristina Costa Lima (psicóloga, mestre em saúde pública, doutoranda no Programa Interdisciplinar em Ciências Humanas, UFSC.
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A cigarra e a formiga ou como os psicanalistas perderam
diante da "máquina" dos psicotrópicos
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Quando as drogas psicotrópicas entraram em cena, a partir de 1952, com o advento dos primeiros neurolépticos no mercado, iniciou-se um formidável trabalho de transformação. Os efeitos dessa transformação foram, frequentemente, descritos somente em relação aos pacientes egressos de hospitais psiquiátricos, capazes novamente de travar um diálogo psicoterápico. Ficou-se nisso (1).
Trinta anos mais tarde, teve início uma lamentação por conta de uma invasão na vida cotidiana, pelas novas famílias de psicotrópicos, descendentes dos neurolépticos: inicialmente, os ansiolíticos e soníferos da família dos benzodiazepínicos, em seguida os antidepressivos da família do Prozac (inibidores seletivos da recaptação de serotonina) e, finalmente, os psicoestimulantes/tranquilizantes, como a Ritalina. Os franceses ficam, particularmente, preocupados: quebraram todos os recordes do mundo, comprando 122 milhões de caixas de psicotrópicos no ano de 2005.
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As ilusões dos psicanalistas
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A partir de 1952 – data de entrada no mercado do primeiro psicotrópico moderno, a clorpromazina (Largactil), para o tratamento da esquizofrenia –, os psicotrópicos instalaram uma “máquina” no meio da “cena” psi. Alias, doravante, seria mais justo falar de uma fábrica do que de uma cena (2). Os psicoterapeutas (em particular sob influência psicanalítica) não compreenderam a importância do que estava por acontecer; eles acreditaram que podiam continuar a ganhar terreno com a psicanálise, passando da psicanálise das neuroses àquela das psicoses; o porvir lhes pertenceria por direito; a chegada dos medicamentos psicotrópicos era somente um detalhe de pouca importância que não impediria a inevitável expansão da sua concepção de alma e dos valores universais que a acompanhavam. Os psicoterapeutas psicanalistas explicaram, com toda sinceridade, que a saída de um grande número de psicóticos dos hospitais era o resultado de sua ação e de seus engajamentos. Eles se iludiram durante anos sobre seu poder inatingível. Enquanto isso, a máquina trabalhava… Os psicotrópicos reorganizaram, inicialmente, a psiquiatria pesada, herdeira da psiquiatria asilar, aquela que se ocupa dos pacientes psicóticos ou esquizofrênicos. A psicoterapia começara, caminho inverso, a se ocupar das neuroses, criando mesmo uma nova psiquiatria urbana (3) ao lado de uma velha psiquiatria asilar. Mas ela [a psicoterapia] pensava, graças aos seus progressos, poder começar a ganhar o coração da fortaleza psi, os hospitais psiquiátricos, e os reorganizar a seu modo. Enquanto a psicanálise se entrega às delícias do lacanismo, sonha uma psicanálise das psicoses, a máquina trabalha... A cigarra e a formiga... Adivinhe quem vai levar? É esta história que nós queremos contar, tentando compreender porque os psicanalistas e todos aqueles a quem inspiraram no seio da psiquiatria, perderam a guerra, sem enfim ter estado em seu comando.
Como trabalha a "máquina"? Ela é muito modesta de início. Ela não tem nenhuma pretensão. Ela se apresenta somente como uma ferramenta suplementar a serviço dos profissionais. Ela só quer ajudar... Ela não tem nenhum desejo de subir ao palco para mostrar seus músculos. Ela não sabe rir, de modo que não ri de ninguém. Ela é respeitosa e a cada vez que um intermediário fala em seu nome, ele especifica que sua ação deve ser complementada com uma “psicoterapia”. De forma alguma vai se zangar com alguém. Enquanto os lacanianos ocupam a cena pública, cantam e dançam, ela trabalha no subsolo sem que ninguém se interesse muito por seu modo de agir, por suas ambições. A máquina avança lentamente e nada parece poder detê-la. Ela é medíocre. Não se perceberá sua onipotência até quando tenha reorganizado, não somente a psiquiatria asilar, mas igualmente a psiquiatria urbana e mais recentemente a psiquiatria da infância e da adolescência.
Os psis, entretanto, poderiam se alertar: nos congressos, para alcançar a “câmara dos lordes” (onde se discutem os conceitos), é necessário mais tempo para atravessar a “câmara dos comuns”, onde se expõem, sobre os estandes reluzentes de riqueza, os novos parceiros industriais da psi. Mas a cama é feita à parte (ou de faz-de-conta). De jeito algum se misturam aos recém chegados. Da câmara dos lordes ignora-se – ou se faz-de-conta que se ignora – tudo o que se passa (4) in the other place (5).
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Dos psicotrópicos às terapias comportamentais
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A nova “máquina” é bastante estranha: ela não possui uma entrada e uma saída como uma máquina comum. Possui somente duas saídas. Mas a saída de um lado é absolutamente indispensável à saída do outro lado. Umas dependendo das outras, as produções se debilitariam, se deteriorariam. Elas se nutrem uma à outra.
A primeira saída deixa passar uma produção que se poderia chamar de “biologia menor”. Aplica-se ao conjunto de técnicas que vai permitir chegar aos novos psicotrópicos, no que diz respeito aos “sucessores" daquelas já existentes no mercado. As características da máquina explicam porque os novos psicotrópicos não são mais que ligeiramente diferentes dos precedentes. A máquina tem como engrenagens algumas técnicas. Inicialmente foram os testes comportamentais em animais, basicamente em ratos e camundongos. Esses testes começam por ser observacionais. Por exemplo, quanto tempo um camundongo suporta ficar pendurado numa haste giratória antes de cair, após a absorção ou não de um medicamento em teste (6)? Há também os testes de reversão: como em um cão, um medicamento em teste inverte os efeitos de uma outra substância (os efeitos de vômito induzidos pela apomorfina, por exemplo, encontrada nos neurolépticos). Mais tarde, inventaram-se os testes celulares: como um medicamento em teste age sobre os receptores neuronais ou sobre as substâncias que circulam no cérebro (como a dopamina).
É importante o interesse à maneira como esses testes de comportamento ou bioquímicos são ajustados: eles não são inventados in abstracto, como por exemplo, tentando imaginar como poderia ser um rato esquizofrênico ou um camundongo deprimido. Eles são sempre desenvolvidos em referência a um psicotrópico que já está no mercado. Isto ocorre porque um psicotrópico já utilizado na clínica humana induz um tal efeito comportamental ou bioquímico no animal, o que leva a que sejam procuradas todas as moléculas que produzem aproximadamente o mesmo efeito. O "aproximadamente" é aqui muito importante: é a possibilidade, para uma equipe de pesquisadores de um laboratório farmacêutico, de chegar a um medicamento um pouco diferente dos precedentes, o que é certamente promissor de um ponto de vista comercial. Deslocando-se, assim, os psicotrópicos vão pouco a pouco se diversificar e invadir todo o campo dos transtornos mentais. Este é seu segredo de produção.
Assim, temos a primeira produção da nova máquina, que se instalou a partir de 1952 e que não fez mais que se aperfeiçoar desde então. Mas, ao lado desta “biologia menor” – a soma de instrumentos técnicos para inventar os medicamentos sucessores – a máquina produz, simetricamente, uma “psicologia menor”. E esta nos conduz ao sujeito que queremos explorar neste livro. Visto que, se os efeitos da biologia menor no seio da biologia vão finalmente ficar sob controle (não só por causa dos procedimentos próprios das ciências experimentais, mas também porque os pesquisadores da indústria farmacêutica se vêem lembrados constantemente, mais pelo financeiro do que pelo que inventam, o que deve ser seu único objetivo: ajustar os sucessores dos medicamentos que já estão no mercado e não se interessar por nada mais), o mesmo não acontecerá com a “psicologia menor”. Ela vai invadir e retorcer de uma nova maneira o conjunto do campo psi.
Podem-se acompanhar os efeitos da organização e da reorganização induzidos pela psicologia menor: estudos comparativos tornam-se obrigatórios, a partir de 1962, pelos poderes públicos, a criação de ferramentas de diagnóstico e escalas comportamentais para poder submeter tais estudos, o aperfeiçoamento e refinamento dessas ferramentas ao longo do tempo e a chegada das novas drogas psicotrópicas. Abandona-se progressivamente a divisão psicose/neurose, inútil para julgar a eficácia dos medicamentos. As novas entidades clínicas dominam a cena. A noção de depressão terá um papel chave neste processo de reorganização. Os psicoterapeutas podem mesmo ser colocados a serviço da máquina ao desbravarem novos territórios: transtornos obsessivos-compulsivos (TOC) e síndrome pós-traumática. Muito rapidamente, a farmacologia bombardeia esses novos campos com suas descobertas moleculares, os redefine e os apreende para si. As psicoterapias são redefinidas e reorganizadas: elas serão comportamentalistas. Elas se adaptam, desse modo, às noções às exigências e aos protocolos que convêm aos medicamentos psicotrópicos. Elas utilizam, agora, as mesmas definições dos transtornos psicológicos, os mesmos critérios de avaliação de melhora, as mesmas escalas e as mesmas ferramentas estatísticas, as quais foram concebidas para testar a eficácia dos psicotrópicos.
A máquina inventa de um lado as ferramentas que permitem medir os efeitos que ela própria produz do outro lado. A maquinaria escapa a qualquer controle. Não há o deus ex machina, somente as pequenas mãos, como os grandes líderes da psiquiatria (os “formadores de opinião”), que colocam sua notoriedade a serviço da máquina. Os psicanalistas que acreditaram ter-se tornado definitivamente os grandes inspiradores da psiquiatria, nada viram chegar e não se opuseram a essa onda impetuosa. Tornou-se uma questão política. Por que os psicanalistas estão desarmados diante do que chega e dos riscos que isso carrega? As pobres pequenas máquinas freudianas e lacanianas estão prestes a desaparecer ou não serem mais que uma simples referência cultural, não encontrando praticamente nenhum eco nos dispositivos de cuidado.
O que nós podemos fazer no caso de entrarmos em uma nova fase? Os psicanalistas não podem mais fingir que seus conceitos não ocupam a cena, como se ainda fosse possível considerar a “máquina” como um mero complemento à sua onipotência. Eles podem conceber essa chegada como um complô sem compreender o funcionamento assustador da máquina. Nós gostaríamos que esta fosse uma oportunidade para que eles examinassem o que está errado nos seus modos de intervenção e a chance de uma renovação. Este livro é, então, uma intervenção política neste campo de batalha. Ele não seria possível sem o trabalho de Isabelle Stengers. O que lhe devo é muito importante, de modo que será referido nas citações até o final do livro (7).
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(1) Deve-se recordar aqui a formidável pesquisa realizada dentro de um hospital argentino por um jovem sociólogo das ciências, Andrew Lakoff. Ele estudou as transformações sofridas por uma psiquiatria sob influência psicanalítica quando chegaram os medicamentos e os estudos para identificar uma causa genética para o transtorno bipolar (Andrew LAKOFF, Pharmaceutical Reason. Knowledge and Value in Global Psychiatry, Cambridge University Press, Cambridge, 2005).
(2) Parafraseio, aqui, Gilles Deleuze e Félix Guattari: “Isso funciona em toda parte, às vezes sem parar, às vezes descontínuo. Isso respira, isso esquenta, isso come. Isso caga, isso trepa. Que erro ter dito o isso. Em toda parte estão as máquinas, não de todo metaforicamente: as máquinas das máquinas, com seus acoplamentos, suas conexões” (Gilles DELEUZE, Félix GUATTARI, Capitalisme et schizophrénie. L’Anti-OEdipe, Minuit, Paris, 1972, p. 7).
(3) La psychiatrie de ville, no original (nota da trad.).
(4) Faço aqui referência à maneira como, na Grã-Bretanha, a Câmara dos Lordes perdeu todo o poder, mas continuou a olhar do alto a Câmara dos Comuns… Como participante, a convite de Elisabeth Roudinesco, de um congresso da Sociedade de História da Psiquiatria e da Psicanálise, este dispositivo me espantou, ainda que deixasse indiferente o conjunto dos participantes.
(5) Em inglês no original (nota da trad.).
(6) Le candidat médicament, no original (nota da trad.).
(7) Isabelle STENGERS, La Vierge et le neutrino. Les scientifiques dans la tourmente,
Les Empêcheurs de penser en rond, Paris, 2004.
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